editorial

Abismo social

Dirceu Sousa
24/07/2021 às 05:30
Atualizada em 24/07/2021 às 05:30.

Os programas de auxílio financeiro desenvolvidos no país são, talvez, a maior evidência de que o Brasil acentuou a distância entre as pessoas de baixa renda (ou nenhuma) e aquelas mais abastadas. Nunca na história do povo brasileiro a situação crítica da classe em pobreza absoluta foi tão escancarada como agora, com os reflexos mais nefastos da crise financeira provocada pela pandemia do coronavírus. Muita gente precisou da ajuda econômica do governo, seja federal, estadual ou municipal, para sobreviver. Para essas pessoas, a oportunidade de trabalho e renda se afastou por completo, e o dinheiro, que praticamente já não existia, simplesmente desapareceu.

Apenas para se ter um cálculo simples, o Auxílio Emergencial Mogiano, que pagou três parcelas de R$ 100 para 32 mil famílias, de acordo com dados da Prefeitura de Mogi, atendeu cerca de 128 mil pessoas, considerando a estrutura média de quatro membros por família no Brasil. Isso representa quase um terço da população da cidade. Há ainda um contingente humano que sequer possui mecanismos para reivindicar os benefícios do governo. São aqueles que vivem abaixo da linha da pobreza, sem moradia e, muitas vezes, até sem documentos.

As classes mais ricas conseguiram sobreviver na pandemia com aplicações em outras fontes de renda, como ações e imóveis, chegando inclusive a aumentar suas fortunas. Não há crítica nisso, afinal, desde que legalmente, todos têm direito a enriquecer. Mas o que preocupa é o abismo social criado durante a crise sanitária da Covid-19 e que deve durar ainda um longo tempo.

É preciso criar outras alternativas, principalmente na geração de empregos que possam atender as famílias em situação vulnerável. Sem um trabalho, as pessoas deste grupo precisarão dos programas de auxílio oficiais para se manterem minimamente dentro de condições humanas. Não há, porém, meios concretos do governo prolongar os benefícios e também não há perspectiva de que a economia se recupere em curto espaço de tempo. Devemos chegar até o final do ano na cobertura completa da população adulta vacinada. Daí para a frente, será necessário reduzir a distância entre as classes sociais.

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