editorial

Politização da Saúde

Portalnews
08/05/2021 às 05:30
Atualizada em 08/05/2021 às 05:30.

Era inevitável que o volume de bilhões de dólares envolvido nas medidas de combate ao coronavírus - seja no tratamento dos pacientes, na compra de insumos para abastecer hospitais e nas pesquisas e desenvolvimento das vacinas -, trouxesse uma série de denúncias sobre superfaturamento e desvios de verbas em diversos níveis da administração pública. O que não se esperava era que a Saúde virasse um imenso palco para debates políticos e econômicos.

A ideia da suspensão dos direitos de propriedade intelectual sobre as vacinas contra a Covid-19 proposta por países como Índia e África do Sul na Organização Mundial do Comércio (OMC), por exemplo, nos dá uma visão global do assunto. A proposta traria, diretamente, a quebra da patente dos imunizantes a partir da possibilidade da transferência de tecnologia para a produção das vacinas.

Assim, os laboratórios americanos e europeus que gastaram rios de dinheiro no desenvolvimento dos imunizantes, perderiam a exclusividade na produção do medicamento, abrindo a possibilidade para que empresas menores, no mundo inteiro, pudessem fabricar a vacina contra a Covid-19. Economicamente, não há interesse das grandes fabricantes, mas a questão da Saúde e a alternativa de ampliar a produção para atender principalmente os países mais pobres superam a ideia de lucro, o que é justo, vislumbrado pelas farmacêuticas.

O governo dos Estados Unidos decidiu apoiar a medida, propondo uma quebra temporária das patentes em virtude da gravidade do quadro mundial de infecções. Porém, desde o ano passado, as fabricantes norte-americanas se mostraram contrárias à iniciativa. Nações como Suíça, Japão e Reino Unido também indicaram a negativa para a quebra de patentes. O Brasil não deu apoio à proposta da Índia e da África do Sul.

O que mais preocupa no debate é que alguns países estão explorando o tema com finalidade política. Os mais pobres, onde atualmente o contágio atinge índices elevados, logicamente defendem a ideia. Já os mais ricos, que atravessaram o auge da crise e começam a retomar a economia, lutam pelos direitos adquiridos. No fundo, todos lutam pelos seus interesses, mas alguns querem os louros da solução, de olho no aumento do poderio político.

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